Mission Log dezesseis. Se você chegou agora, escrevo todo dia no caderno por vinte minutos contados no relógio (ou não); o Claude peneira o que cai no mundo. #001 abre a série.
Meio da tarde e sentei pra fazer o de sempre — escrever, meditar, escrever. Minha mão ainda nem tinha começado a doer quando o telefone tocou. Era o Ed, meu professor de jiu-jitsu, e a gente tá no meio de uma coisa séria. Atendi.
O "tem cinco minutos?" virou uma hora e, quando desliguei, o incenso já tinha acabado. A porta tinha aberto. As crianças tinham chegado da escola. Mas o timer ainda tinha 15:10 de areia pra escorrer.
Sempre fui fascinado por ampulhetas. Tenho uma tatuada na canela, inclusive — a maior dor que já senti na vida.
A dor do tempo. Poético.
Falando em tempo, eu tenho umas histórias na cabeça que um dia gostaria de escrever. A do garoto João com sua (caixa da mudança) nave mágica que só aparece no armário do seu quarto quando está chovendo e ele não pode brincar lá fora. Dentro dela, um carimbo que só revela a marca depois de carimbar — um destino, uma data, um lugar; João nunca sabe pra onde vai. Tem a do casal que volta no tempo e precisa que decidir entre apagar os arrependimentos e o seu amor; meio Efeito Borboleta, meio Click. Tem também uma biografia fictícia estilo Joy Luck Club que com certeza teria o episódio do bisavô que veio fugido de Málaga aos 9 anos ao se esconder por acidente dentro de um navio enquanto fugia do padrasto — que o perseguia pela cidade com uma garrucha — e que, semanas depois, pulou no mar ao perceber que não conseguiria driblar os fiscais de imigração em Santos.
Entre sonhos e memórias, ideias e hipóteses, planos e histórias, esse caderno tá acabando. Nos próximos dias vai receber os últimos riscos de grafite e sabe-se lá quando será aberto de novo. Quem dirá lido.
Mas a gente não escreve pros outros, não senhor. A gente escreve pra gente.
O nosso Querido Leitor é a gente mesmo. Num futuro distante. Talvez um filho enfrentando os dilemas da vida adulta que procura consolo nos registros do pai.
Legado? Meu legado é viver sem trair meus princípios. Não ter me vendido pra um sistema que só valoriza a "entrega de valor pro leitor". No caderno não tem algoritmo, like ou seguidor.
Ali, a gente pode largar tudo e escrever as histórias que tem na cabeça.
Nem que seja só por vinte minutos.
(e mesmo que o telefone toque)
Plim.
Daniel
A versão curta dessa hora foi pro LinkedIn de hoje.
