Esse é o segundo mission log. Pra quem caiu aqui de paraquedas, isso aqui é um diário público. Todo dia eu fecho a porta e escrevo à mão por quarenta minutos — vinte antes de meditar, vinte depois. O Claude me ajuda a peneirar o que vale a pena chegar até aqui. O resto fica no caderno. Pro contexto inteiro, comece pelo #001.
Hoje começou com post-its.
Tenho post-its espalhados pelo escritório. Frases, conceitos, pedaços de ideias que sei que são importantes, mas que minha versão atual ainda não está pronta para usar.
São loops abertos. A mente sabe antes do corpo. Ela guarda o que ainda não cabe.
"Let's put a pin on it," repetiam os meus colegas de escritório, sempre que algo merecia ser discutido, mas não agora. Eu achava a expressão corporativa e descartável. Agora escrevo, e percebo que é exatamente o que eu faço com post-its. Pino coisas na parede que o Daniel do futuro vai precisar (ou não).
Engraçado como as coisas sempre encontram caminho de volta quando você é escritor. Tudo vira inspiração. Tudo é inspiração.
Hoje escrevi diferente, em terceira pessoa. Como se contasse uma história. E percebi que pro escritor não existe certo e errado (isso teria aterrorizado meu eu criança).
"Se não tem certo nem errado, como eu sei se sou um bom menino? Como eu sei se mereço ser amado?" Hoje, sei que mereço. Que posso ser amado pelo que sou. Pronto. Sem condição.
(O menino dentro de mim ainda está processando isso. Calma, garoto.)
Na meditação, o professor diz pra observar. Só observar. A mente vai fugir — esse é o trabalho dela. O meu trabalho é perceber quando fugiu e voltar pra respiração. Mas pro perseguidor de pensamentos, um puxa o outro, que puxa outro, e quando percebo a semana acabou e não publiquei nada. Não testei nada. Não botei nada no mundo.
Jiu-jitsu. Stephen King. A separação dos meus pais. Sono. A respiração rasa que parece nunca dar oxigênio suficiente. Tudo apareceu em vinte minutos de silêncio. E o professor diz: identifique, solte, volte.
Identificar. Soltar. Voltar.
Mas as coisas voltam. Voltam nos post-its, voltam na meditação, voltam na página. O rio do Mission Log passado voltou — aquele rio de medo. As coisas voltam até serem enfrentadas. Até a gente olhar pra elas sem julgamento e deixá-las ir sem apego.
Você não é o trabalho. Mas o trabalho reflete quem você é.
Depois da meditação, levantei, coloquei os óculos, acendi a luz das musas, liguei o timer e escrevi. Porque é isso que escritores fazem. A mente pode fugir. O escritor presta atenção no que volta.
Sou um bom escritor? Sinceramente, não é comigo. E cá entre nós, tô cagando. Eu só espero repetir meu ritual o suficiente pra melhorar e, quem sabe, ter algo pequeno pra dizer ao mundo. Algo que mude uma vida. Ou salve uma. Ou um casamento. Uma família.
(plim)