021 — Mudança

021 — Mudança

Mission Log vinte e um. Pra quem chega agora: a prática é escrever todo dia por vinte minutos, à mão, num caderno; o Claude peneira o que sobra pra internê. #001 abre a série.


Essa semana eu me perdi um pouco na escrita.

Fiquei mais tempo no Instagram do que no caderno. Foi difícil achar vinte minutos entre a decisão e o próximo compromisso — uma reunião, uma aula, buscar na escola, fazer jantar. Os dias passaram e as linhas continuaram vazias. Nas poucas vezes que escrevi, foi difícil tirar algo público dali. Não que fosse esse o objetivo. Eu escrevo pra organizar os pensamentos, as prioridades, os projetos, os próximos passos. Mas desde que criei o sistema de extração com o Claude, fico levando o próprio sistema à prova.

E essa semana, o sistema apanhou. Dá pra ver quando até a máquina tenta em vão. Tirar leite de pedra, talvez seja a expressão melhor.

Como eu sempre digo, a IA não consegue articular o que ainda não tá claro pra você.

Ao invés de insistir pra gerar um novo ângulo do texto que rabisquei no caderno, abri o LinkedIn fresco, do zero, sem rascunho. E como num ato de rebeldia contra as desculpas, confessei que não tava dando certo. Escrevi de novo, sozinho.

Independente dos resultados (parei de deixar as métricas de vaidade ditarem o que é sucesso faz tempo), o que ficou comigo foi que antes eu não tinha o que postar. Mas ao invés de usar o sistema como muleta pra não postar, fui lá e escrevi.

Não pular é um fator de sucesso pra mim. Fazer o que falei pra mim mesmo que ia fazer é inegociável. Porque quando eu me tornar a pessoa que faz o que precisa ser feito mesmo quando o dia conspira contra, aí ninguém me segura. Aí acabou pras inimigas.

Mas será que esse dia já não chegou e eu que insisto em fingir que não? Será que a repetição já não causou uma mudança que eu ainda não consigo ver?

Por falar em mudança, ontem o Antonio me perguntou se eu acho que ele tem potencial pra jogar na NBA. Respondi que sim. E acredito mesmo. Ele tem todo o potencial — só precisa usá-lo com a bola e a cesta.

Ele contou que fez a mesma pergunta pra um amigo, quando estavam falando do que querem ser quando crescer. O amigo riu. Depois corrigiu: "ah! você tava falando sério? Porque você não é tão bom assim". A reação do Antonio não foi se apequenar. Levantou e desafiou o amigo pro um-contra-um. O amigo declinou.

E eu fiquei pensando que meu papel de pai é incentivar que ele nunca perca essa confiança (e que trabalhe duro o suficiente pra justificá-la). Choque de realidade a vida se encarrega.

O Antonio é ingênuo, romântico, imaginativo (filho de Peixes). Mas ele tem essa mentalidade se não eu, quem? instalada de fábrica (filho da mãe). Se eu não tentar, quem vai fazer por mim?

Poucos meses atrás, ele reclamava que era sempre o último a ser escolhido pra jogar futebol americano. Não acalmei. Disse pra continuar jogando, dando o melhor a cada jogada, que eventualmente ele ia encontrar algo em que é bom: correr com a bola, receber um passe em movimento, impedir o adversário de receber. Quanto mais fizesse, melhor ficaria. E os amigos iam perceber.

Hoje, é um dos primeiros a ser escolhidos. E, segundo ele, o time dele sempre ganha.

Com a escrita é meio parecido. Só que aqui não tem placar. Não tem amigo pra perceber. Não tem time pra te escolher primeiro.

A mudança acontece dentro. E só aparece quando você relê — ou quando, sem perceber, articula algo que três meses atrás não conseguia.

Talvez já tenha começado. Talvez só falte você reparar.

Plim.

Daniel