019 — Gentil

019 — Gentil

Mission Log dezenove. Acho que é primeira vez que escrevo esse número por escrito na vida. Pra quem caiu aqui agora: a regra é escrever todo dia por vinte minutos contados no relógio, num caderno qualquer; o Claude peneira o que sobre pra internê. #001 abre a série.


Tem dois tipos de dia aqui: os que eu sei o que vou escrever (ao menos pra começar — a mágica acontece no meio), e os que eu não faço a menor ideia até começar. O Querido Leitor já deve estar acostumado: a escrita de hoje é do Tipo II.

Sem ideia nenhuma, preenchi as linhas com a contagem regressiva do timer. E pensando bem, não é assim que a gente vive a maior parte dos dias? No automático, executando a tarefa da vez até o relógio mandar pra cama, só pra recarregar e fazer tudo de novo amanhã?

Essa escrita foi procrastinada por três horas. Hoje não precisei levar ninguém pra escola, mas o tempo livre foi roubado pela falta de força de vontade de largar a porra do celular, sentar a bunda no banquinho e escrever. Já são três dias sem aparecer aqui.

Não gosto quando o tom do texto fica punitivo com o Daniel do passado. Mas com o lápis na mão, o tom muda. As próximas linhas podem ser mais alegres.

Tipo quando recebi os resultados dos exames de sangue e fiquei genuinamente feliz de ver tudo bonitinho. Saúde de ferro. Exames em ordem.

Fiquei surpreso? Fiquei. Mas não deveria.

Eu como bem, durmo bem, medito, pratico atividade física, não fumo, bebo muito pouco, cuido de mim. Não deveria estar diferente. Os exames são reflexo das coisas certas que estou fazendo.

A surpresa é a mania de nunca ser gentil consigo mesmo. De sempre querer achar algo pra melhorar — ou de me punir mentalmente pelos deslizes, que acontecem comigo como acontecem com todos.

"Eu não deveria ter pensamentos assim."
"Não estou tomando água o suficiente."
"Não estou dormindo o suficiente."
"Estou comendo muito açúcar."

Armadilhas mentais difíceis de evitar.

Mas as ações falam mais que os pensamentos — principalmente os ruins. E tenho agido de acordo com a pessoa que quero ser.

Vale pra produção de conteúdo também. O que não importa é o número de seguidores ou de pessoas impactadas pelo post. O que importa é postar de acordo com seus ideais, com suas ideias, com seus valores.

O braço dói de escrever? Dói.
Mas o cérebro desacelera. E não tem como isso ser ruim.

O propósito desses vinte minutos aqui não são os posts. É desacelerar até quase parar.

Menos a mão. Essa só pára com o relógio, que ainda tinha segundos suficientes pra me deixar perceber que, pra quem não tinha nada pra escrever, até que escrevi bastante coisa.

Plim.

Daniel