#121 - Usuário

#121 - Usuário

Humano, sou usuário confesso de IA.

Uso pra amenizar a dor de uma agenda desorganizada, pra ter o barato de ler um PDF gigante em segundos, pra sentir a euforia de otimizar funis complexos... gerencio projetos, crio roteiros, resumo livros, analiso dados, brinco com hipóteses de produto.

Não escondo que uso. Conto isso de dentro, não de fora. E é justamente por usar tanto que uma coisa vem me chamando atenção há umas semanas.

Tem um instante específico em que pedir ajuda à IA atrapalha. É aquele momento em que você sabe o que tá sentindo, mas ainda não sabe o que dizer. A boca seca, a mão hesita, a tela em branco te encara. Aí você abre o ChatGPT (ou o Claude, ou o que for), digita um prompt qualquer, e pede pra ele articular por você. Ele articula. Sai bonito. Fluido. Plausível até. E igual a 99% do que aparece nas timelines de todo mundo.

Há quase um ano, sem planejar, comecei um experimento: ao invés de conversar com um algoritmo e pedir pra máquina articular o que estava na minha cabeça, sento na frente de um caderno e escrevo por vinte minutos sem parar — contados no relógio.

Nos últimos dois meses comecei a passar o texto pela IA antes de publicar. Só pra dar aquela peneirada, sabe? Afinal, ainda é um caderno pessoal. E o que aconteceu era óbvio que ia acontecer, mas ainda assim me surpreendeu: quanto mais eu escrevia, menos a IA tinha o que articular. A coisa já chegava articulada.

Rick Rubin, em The Creative Act, tem uma ideia que tomou conta da minha cabeça depois desse experimento: o artista é um receptor. O trabalho já tá no ar — em padrões, tensões, contradições, sussurros — e a nossa função é só sintonizar. "A criação é um ato de receber, não de fazer."

Esses minutos no caderno ajudam a sintonizar na frequência certa. Na frequência humana.


Tente esta semana

Inverte a ordem do pedido. Antes de abrir a IA pra te ajudar com aquele post, aquela carta, aquele pitch, faça assim:

1️⃣ Vinte minutos no papel, antes de qualquer prompt. A pergunta é a mesma que você ia digitar pra máquina. Não pesquise, não corrija, não pare. Só escreve. Quando travar, escreve qualquer palavra (eu uso "bacon") e segue.

2️⃣ Lê o que saiu. Sublinha três frases. Procura textura: sensorial, específica, com tua voz embaixo. As três frases que só você escreveria — independente de quão bonitas elas estão hoje.

3️⃣ Agora abre a IA. E muda o pedido. Em vez de "escreve um post sobre X", joga sua escrita do caderno e diz: "essas três frases têm tudo que importa pra mim. Me ajude a sustentar o tom delas e cortar o que não importa." Você vai sentir a diferença na primeira tentativa.

4️⃣ Diagnóstico rápido: se você não conseguiu sublinhar três frases, sua articulação ainda não tá pronta — e tá tudo bem. Qualidade vem com quantidade. Senta amanhã de novo. Vinte minutos. Antes do mundo abrir.

Quarenta minutos por semana, em pedacinhos. Na terceira tentativa você já sente o atrito mudar — a máquina para de competir com o teu tom e começa a sustentar. E sustentar o seu tom é a única coisa que separa quem soa como todo mundo de quem soa como ele mesmo.

Até domingo.

Plim.

Daniel