#119 - Humano, escreve bacon.

#119 - Humano, escreve bacon.

Olá, humano. Feliz domingo à noite.

(Quase) todo dia eu escrevo por 20 minutos ininterruptos num caderno. Quando não sei o que escrever, escrevo "bacon". Não paro, não apago, não penso, não volto pra ler se tá fazendo sentido. A mão só para quando o timer faz Plim.

Escrever assim me ensinou que "não tenho nada pra falar" é uma das grandes mentiras que a Voz nos conta.

A Voz, essa entidade que vira e mexe aparece com letra maiúscula no meu caderno, talvez seja minha versão do que Steven Pressfield chama de Resistência em The War of Art. É uma força do mal que age contra a criatividade humana, o desejo de sucesso e o crescimento pessoal. Procrastinação, perfeccionismo, Síndrome do Impostor, distração, busca infinita pela palavra exata — tudo Resistência, tudo o mesmo bicho usando roupas diferentes.

A receita dele para combatê-la é genial pela simplicidade: o amador espera a inspiração, o profissional senta e faz o que precisa ser feito. Se torne um profissional.

A minha é escrever bacon. Quando você travar pra escrever, escreve qualquer coisa. Bacon. Cebola. O nome do seu vizinho. A cor da parede. O que estiver na sua cabeça. Mas escreve. A palavra certa pode esperar. Sua mão, não.

E assim, de bacon em bacon, de palavra solta em palavra solta, de pensamento desconexo em pensamento desconexo, as ideias vão tomando forma. Vão ficando mais claras. Mais articuladas. E você vê que tem, sim, muito pra falar.

E mais...

Esse truque do bacon paga juros. Porque os vinte minutos no caderno mexem mais com a hora seguinte do que com a página em si.

Te conto isso porque sou o meu próprio estudo de caso. No meu 4º ano empreendendo — sem próximo passo óbvio, chefe ou pauta, só caderno em branco — o mês de abril começou frio, mas fechou com dezenas de propostas na rua e seis conversas no pipeline já marcadas. Tudo resultado dessas sessões diárias de escrita.

O que escrevo no caderno molda muito mais do que o que falo na internet. Molda também o que priorizo, como produzo e quão rápido executo a tarefa da vez.

E por causa disso, essa newsletter volta em frequência semanal (é a 123ª que te mando — em formatos vários, a relação é a mesma). Meu compromisso aqui é aparecer e mostrar o que funciona e o que falha. Veio tudo do caderno.

Bora?

Quer entrar nessa comigo? Vinte minutos amanhã, antes do mundo abrir. Não precisa virar profissional — só sentar e não parar até o Plim:

1️⃣ Timer + Papel. No papel não tem notificação, não tem corretor automático, não te deixa pesquisar a próxima palavra.

2️⃣ Escreve sobre o que tá te aporrinhando agora. Trabalho, casa, saúde, conversa que não saiu, decisão pendente. O assunto não importa. Importa escrever.

3️⃣ Quando travar (e vai travar) escreve "bacon." Ou descreve seu último pensamento, a última coisa que você fez ou no que você está pensando agora. Continua na próxima linha. Sem voltar. Sem editar.

4️⃣ No Plim, levanta e faz a próxima tarefa do dia. Qualquer uma. A pequena. A que tá adiada há três semanas. Sem pensar muito. Faz.

Repetir esse ritual diariamente nas últimas semanas me mostrou que a tarefa seguinte fica mais leve. Mensuravelmente mais leve. Coisa que arrastava o dia inteiro sai em quinze minutos. Conversa difícil que eu tava fugindo, marquei. Agendamento esquecido, fiz. Treino pulado, desci e pedalei.

Não tem mágica. A mecânica é: o caderno cansa a Voz, a Voz cala um pouco, e você desce o escorregador da resistência por mais umas horas.

Stephen King defende algo parecido em On Writing: aparecer todo dia ensina mais do que escrever bem. Porque o ato de aparecer é o que treina o cérebro a parar de negociar. Vinte minutos por dia ensinam que terminar é uma sensação que existe.


Pra essa semana

Essa carta agora vai chegar pra você todo domingo. A receita será mais ou menos fixa, como tudo que já publiquei por aqui: um princípio prático que cabe num café + uma janela pro que tá rolando do lado de cá. Por baixo das duas partes, uma pergunta só — a mesma que me assombrou quando perdi o emprego num layoff:

Quem você é além do crachá?

Eu construí a minha resposta na marra, vinte minutos por vez, no caderno. Hoje rodo o mesmo método com outras pessoas em call de 45 minutos — pra extrair o que já tá escrito em você mas ainda não saiu da boca, pra encaixar isso numa frase que faz sentido na primeira linha do teu LinkedIn, nos seus posts e artigos. Se num domingo desses você sentir que tá pronto(a), me responde esse email. A gente marca.

Por enquanto, a frase pra ficar na cabeça e destravar:

O importante não é achar a resposta. É não parar de procurar.

Continua aqui.

Plim.

Daniel