017 — Tom de cinza

017 — Tom de cinza

Mission Log dezessete. Hoje não foi redondo, muito pelo contrário. Mas apareci. Pra quem chegou agora, escrevo todo dia no caderno por vinte minutos contados no relógio (ou não); o Claude peneira o que cai no mundo. O post #001 abre a série aqui no site.


Eu não sabia o que escrever hoje.

Quase nunca sei, aliás. Mas hoje nada tava ideal — a harmonia da casa, a conta bancária, a agenda, os leads que agendam e não fecham, as incertezas se vai dar pra continuar assim. E dali uns minutos eu tinha mais uma daquelas reuniões em que ou eu balanço a cabeça e fico quieto ou me expresso pra ver minhas ideias morrerem numa ata.

É difícil quando só o seu está na reta.

Será que mudaria algo se entrassem alguns zeros na conta? Parte de mim acredita que não. Que as reclamações continuariam as mesmas, que o cansaço continuaria habitando nossos corpos. Que não tem linha de chegada.

Andei conversando com o Ed, meu professor de jiu-jitsu, sobre essas coisas de criar filho. E chegamos numa ideia meio óbvia, mas que a gente esquece toda hora: precisamos estimular os comportamentos que merecem ser repetidos mais do que o resultado das ações dos pequenos. Aplaudir que estudou, não a nota da prova.

E escrevendo essas linhas eu cheguei à conclusão que o que eu faço comigo há um tempo no caderno transborda pra como me apresento pro mundo: sentar pra escrever sem me preocupar com o que sai dos movimentos finos e minuciosos da minha mão direita; colocar o quimono sem almejar uma promoção de faixa, sem imaginar o round perfeito.

Não existe isso, gente. Perfeição é um bom alvo pra se mirar, mas um péssimo objetivo pra se ter. Tudo que a gente pode fazer é dar o nosso melhor toda vez que se propor a tentar algo: uma aula de jiu-jitsu, uma reunião difícil, uma sessão de vinte minutos de escrita que insiste em não acabar.

Como me disse uma chefe-amiga anos atrás, nem tudo é preto no branco; às vezes, precisamos escolher o tom do cinza.

Nem sempre será o ideal. Nem sempre a escrita sai redonda. Nem toda reunião será produtiva. Nem toda palavra fará sentido.

O tom de cinza que escolhi hoje, pra combinar com o dia nublado, foi aparecer pelos mesmos vinte minutos seguindo as mesmas regras (que a essa altura até o caderno já decorou): escrever sem parar pra pensar, e sem julgar.

Sempre que me propuser a fazer algo, farei o meu melhor.
Mesmo que o meu melhor, hoje, seja apenas aparecer.

O barulho da minha cabeça pode ser alto demais.
Escrever no caderno ajuda a...

Plim.

Daniel