Mission Log dezoito. Se você caiu aqui agora: a regra é escrever todo dia por vinte minutos contados no relógio (ou no que sobra dele), num caderno qualquer; o Claude peneira o que cai. #001 abre a série.
Estacionei no consultório médico uma hora antes da minha consulta. Engraçado isso, porque sou tipicamente o cara que chega suado, atrasado e correndo do estacionamento com a chave do carro ainda na mão.
Hoje peguei o horário errado pelo lado certo. Cheguei com tempo num lugar que não é meu escritório, sem incenso, sem ampulheta e sem a luz das Musas, mas com uma ideia na cabeça: minha escrita diária ia ter que acontecer aqui.
Carrego um caderno de bolso encaixado na porta do carro, do lado do motorista. Não sei o nome dessa parte. Maçaneta? Vamos chamar de maçaneta. Esse caderno para emergências do pensamento mora ali na maçaneta com um aviso pra mim mesmo na capa: "em caso de ideia, escreva."
Junto dele, um lápis. Curto. Tamanho ideal. Achei há alguns meses no chão de uma quadra de basquete, num treino do Antonio. Entra justo, não sobra ponta. Se fosse maior, espetaria pra fora e o conjunto não caberia ali, ao alcance. Precisava de um apontador, mas pra hoje dá.
Escrevi de Watertown, a um quilômetro da casa que aluguei por quase quatro anos depois que a gente se mudou pros Estados Unidos.
A casa onde passamos a pandemia. A casa onde a Melissa nasceu. A casa onde comecei a meditar. A casa onde perdi meu último emprego corporativo. A casa onde voltei de incontáveis corridas pela rua. A casa que mais ouviu a Anna dizer "estou grávida".

Era alugada, nunca foi nossa. Mas foi nosso lar.
(No meio da escrita notei que estava escrevendo em inglês hoje, e que em inglês eu penso mais devagar. Não corrigi. Continuei. Desacelerar é justamente o objetivo disso tudo.)
Foi nessa casa que comecei a registrar minhas ideias nesse site. Onde aprendi que o resto do dia não é dado. Que a gente pode sempre ser melhor. Não porque não é bom o suficiente, mas porque tá vivo. E porque eles tão sempre olhando. Veem a gente acordar cedo pra correr num sábado. Veem os pais pararem de comer chocolate na Quaresma. Lembram das noites em inventamos histórias no escuro em vez de olhar pro celular até eles dormirem.
E se um dia lerem essas linhas, vão saber que eu também lembro. Porque a escrita de hoje tá entregue.
Não tem hora ideal. Não tem caderno ideal. Não tem lápis ideal. Tem o lápis achado no chão, o caderno que cabe na maçaneta, e um cara que se propôs a escrever todo dia, escrevendo.
E agora atrasado pro médico.
Plim.
Daniel
Espia lá no LinkedIn como a minha escrita diária também se desdobra em conteúdo profissional
