024 — O mesmo trem

024 — O mesmo trem

Mission Log vinte e quatro. Primeiro que escrevo oficialmente empregado (de novo) — e escrevo no trem, indo pro escritório. Pra quem chega agora: vinte minutos por dia, à mão, num caderno qualquer; uso IA pra peneirar o que vai pra internê. #001 abre a série.


O trem é o mesmo.

Mesmos tubos fluorescentes compridos no teto que me lembram a cozinha do apartamento que mudamos quando eu tinha 8 anos; mesmo som da sola do tênis batendo no piso; mesmas janelas riscadas de chuva, neve, poeira e sal. Fazia quatro anos que eu não sentava aqui — desde a última sexta antes do mundo parar por causa de um vírus que se multiplicava na China.

Quando eu pegava esse trem diariamente tinha dois filhos e um ano e meio de América. Hoje, com cinco filhos e quase uma década na terra do Tio Sam, vejo que o trem não mudou um parafuso. Quem mudou fui eu.

Aí me veio uma coisa meio besta: trem não escolhe trilho. Anda na linha que deram pra ele, do jeito que deram. E nos últimos quatro anos, eu também andei assim — no trilho que a vida foi pondo na frente: o layoff, as trezentas vagas aplicadas, o recomeço, mais um recomeço. Só que tem um detalhe. Esses quatro anos, os mais duros da minha vida, ficaram pra trás. Nos outros cadernos. Porque enquanto o trem só sabia seguir no trilho, eu enchia caderno atrás de caderno.

O que mudou nem é tanto o trajeto, esse continua casa, escritório, casa. Mas é que dessa vez eu não vou só de passageiro.

Mais do que saber o caminho, dessa vez eu quero escrevê-lo. Nem que seja no trem.

Plim.