Isso aqui é o Mission Log: um diário público que sai de vinte minutos de escrita à mão por dia. O Claude me ajuda a garimpar o que vale publicar. A série começa na entrada #001.
Hoje eu abri o portão da garagem enquanto calçava o tênis, sentado no degrau da porta. No verão dá pra ver o sol já às 6:20 e sentir o calorzinho do ar entrando com o barulho dos passarinhos. Tem que aproveitar, que passa rápido.
Vou fazer isso todo dia enquanto a temperatura deixar: portão abrindo, tênis no pé, quintal acordando.
Assim que o portão barulhento terminou a primeira caminhada, ouvi os pica-paus. Pelo menos dois, em distâncias diferentes, bicando as árvores. Pensei: hoje os pica-paus acordaram nervosos.
Não tão nervosos quanto o Jair.
Jair era meu professor de uma matéria sobre o Brasil, no primeiro semestre da faculdade de propaganda. Um cara peculiar, apaixonado por tudo que fosse brasileiro — nossas misturas, nossas gambiarras. "Sushi com manga! Genial! Só no Brasil." Mais apaixonado ainda pelo próprio passado: teria supostamente sustentado relações carnais com uma atriz famosa pelos papeis sedutores, ido numa festa onde a caipirinha saía da torneira de uma máquina de lavar, e quebrado uma carteira escolar nas costas de um aluno bagunceiro. Coisas do Brasil.
O trabalho final, "Brasilidades", era a única nota do semestre. Briefing largo: PPT, teatro, música, jogral, dança, sozinho ou em grupo, contanto que representasse o Brasil. Entre nós, calouros, só ficava a dúvida: alguém já bombou dessa matéria?
Resolvi testar.
Último dia de aula, véspera do verão, primeiro período de terça. Atravessei a rua, comprei duas Skol latão e entrei com elas escondidas na mochila. Na minha vez de apresentar, subi e chamei o professor pra um brinde. Ele disse que não podia beber ali dentro — justo ele — e deixou um aluno representá-lo. Estouramos a lata, brindamos, e eu disse:
"À preguiça!"
A sala quase veio abaixo. Jair, mais nervoso que os pica-paus de Ayer bicando as árvores às 6:20, bateu aquelas palmas americanas — estacadas e pausadas — e, com cara de desdém, soltou: "Genial."
Tirei 7. E até hoje estou sem saber se alguém conseguiu bombar de ESPEB.
Plim.
