026 — O meu lugar

026 — O meu lugar

O Mission Log é meu diário de bordo público: vinte minutos de caderno por dia, antes do expediente — ultimamente, no trem das 6:48. O Claude garimpa comigo o que vale publicar. A entrada #001 conta como tudo isso começou.


Hoje tinha alguém no meu lugar.

Explico a geografia. O vagão tem duas mesas, uma de quatro lugares e uma de seis. Quem desenhou essas mesas quis aproveitar o espaço: em vez de retângulos, são trapézios esticados. Eu não consigo sentar de costas pro sentido do trem (me dá enjoo), o que já corta metade das opções. Das que sobram, desconta as pontas de trapézio mais estreitas que a largura do caderno e o assento do meio entre dois desconhecidos. Sobra um. O da esquerda, na janela.

O meu.

Ocupado.

Sentei na fileira de trás e usei o notebook como apoio pro caderno. (O computador rebaixado a mesinha. Cada ferramenta encontra sua vocação.)

A moça de blusa listrada que sentou do meu lado lia alguma thread no celular. Parecia um mural de rede social ou de trabalho: foto, nome, comentários um embaixo do outro, ela lendo todos.

Eu queria mesmo era ler a crônica de vinte minutos dela. Todo mundo naquele vagão tava lendo alguém, afinal. Ela, a thread. Eu, ela.

Olhei de novo (hoje eu tava evitando comportamentos pouco socialmente aceitáveis, mas o observador aqui é mais forte que o educado). Ela cobriu a tela com a outra mão.

Justo.

E foi aí que eu me vi do outro lado da página. Se ela escrevesse a crônica de hoje, sairia mais ou menos assim:

"Hoje no trem um cara sentado do meu lado olhava pro meu celular e escrevia numa língua que eu não entendo. Não olhei muito porque seria estranho."

A gente tava se lendo o tempo todo. Ela só ainda não publicou.

Plim.