#124 — Linhas tortas

#124 — Linhas tortas

Olá, Humano.

Te escrevo na véspera de uma coisa que eu achei tinha enterrado: minha volta pro corporativo. Depois de quatro anos fora, amanhã começo uma nova fase com uma caixa de ferramentas muito mais refinada. E vou ser honesto com você, o que mora no meu peito hoje é menos troféu e mais frio na barriga.

Em 2022, eu tomei uma porrada na cara. Fui demitido num reorg depois de construir uma carreira inteira em cima de uma missão que eu acreditava. Desde então, abri e fechei uma incubadora de negócios digitais, lancei cursos de posicionamento e marca pessoal, dei consultoria de conteúdo para pequenas e médias empresas, lancei minha newsletter e publiquei 123 edições, mentorei diretores, criativos e estrategistas das mais diversas áreas de atuação, escrevi conteúdo no LinkedIn como ghostwriter para C-levels, participei da expansão internacional de uma editora de livros e, durante isso tudo, mandei mais de trezentos currículos. Muitos aprendizados, algumas entrevistas, mas nenhum virou emprego.

No meio desse deserto, ano passado apareceu uma vaga numa das marcas que eu mais amo no mundo. Fui até o finalzinho do processo. Top dois, top três. E escolheram outra pessoa.

Eu li aquele "não" como um veredito: "se eu não consegui essa, então não sirvo." Parei de procurar emprego. Aquele "não" me derrubou mais fundo do que eu já estava.

Rick Rubin, em The Creative Act, tem uma ideia que eu levei quatro anos pra entender: o trabalho criativo não anda em linha reta. Você tenta, testa, descarta, recombina, refina. O descarte é uma etapa do processo, não a última.

Fazendo uma analogia mais forte do que eu, imagina que você passa horas montando uma casa de LEGO (era como eu brincava quando criança). Daí alguém pisa sem querer (eu tenho cinco filhos, sei bem como é). A casa desmancha no chão. Mas repara que as peças não quebram. Elas só voltam pro balde. E quando você monta de novo, nunca sai igual — porque na segunda vez você acaba usando outras peças, quem sabe até peças novas.

Foi exatamente isso que aconteceu. Um ano depois a mesma posição abriu de novo. O cara que me entrevistou lá atrás postou a vaga no LinkedIn e pediu indicações. Eu mandei uma mensagem perguntando se ele lembrava de mim e se precisava de alguém pronto pra operar no dia um. Cara de pau, mas o não eu já tinha.

Foi a terceira vez que eu bati na porta dessa marca. Dessa vez, ela abriu. Amanhã inicio uma jornada no time de estratégia de comunicação da LEGO.

Encerro hoje os quatro anos mais difíceis da minha vida. Nesse período eu segurei a bronca e os bastidores aqui de casa pra que a Anna, minha esposa, pudesse correr atrás da carreira dela — que pedia pista e decolou. Fui pai dono de casa de três, quatro e depois de cinco filhos e empreendia nas horas vagas. Por muito tempo achei que esses anos fossem um buraco no currículo. Até perceber que foi vendo meus filhos despejarem o balde de LEGO no chão e construírem do nada que eu entendi, de verdade, a marca pra onde eu tava voltando.

E não foram só as crianças. Toda aquela lista lá de coisas que eu tentei era lida como uma série de fracassos empilhados. Hoje eu leio diferente. Era o "testa, descarta, recombina, refina" do Rubin acontecendo em câmera lenta.

Cada projeto que não vingou do jeito que eu queria na época deixou uma ferramenta nova na minha mão. E agora fazem parte da caixa que eu carrego comigo amanhã.


Pra essa semana

Um jeito de olhar pras suas tentativas que "não deram certo" e enxergar o que elas te deixaram.

1️⃣ Lista os seus "não". Pega os "não" dos últimos anos (uma vaga que não veio, um projeto que não vingou, uma porta que fechou na sua cara). Escreve em fila, sem dó.

2️⃣ Do lado de cada um, escreve o que ele te ensinou. Uma habilidade que você não tinha, uma pessoa que entrou na sua vida, uma certeza que caiu por terra. Essa coluna da direita é a sua caixa de ferramentas — montada exatamente pelas tentativas que você jura que falharam.

3️⃣ Bate na porta de novo. Escolhe uma porta que fechou e tenta outra vez, agora com as ferramentas novas. Mesma marca, outro você. (Foi assim que a minha terceira tentativa virou um sim.)


Se você levou um "não" que ainda pesa, não para por causa dele. Aprende o que ele veio te ensinar e bate na porta outra vez. O movimento não é em linha reta, preto e branco, sim ou não. O movimento cheio de voltas, curvas e cores que só aparecem quando a gente mistura a tinta e suja a mão.

Amanhã eu recomeço. De novo. Com frio na barriga, sim, mas com uma caixa de ferramentas que só existe porque eu continuei tentando depois de cada tombo.

E o caderno vai junto porque a prática diária de escrita cabe tranquilamente num vagão de trem.

Plim.

Daniel

PS: Se você conhece alguém que parou de tentar depois de um "não", manda essa carta. Às vezes a pessoa só precisa lembrar de uma coisa: o que parece tempo perdido tava, o tempo todo, afiando a ferramenta.