a luta que não lutei
Eu não comecei jiu-jitsu pra ficar mais forte. Comecei por causa de um fantasma.
Era tarde da noite e eu estava completamente chapado de ChatGPT — você sabe, o robô — depois de ter digitado “o que um iniciante em jiu-jitsu precisa saber?”
Eu esperava movimentos. Dicas. Posições. Talvez um link de YouTube.
Ao invés disso, veio uma memória. Não na tela, no peito.
Eu era um judoca de 10 ou 11 anos.
O ginásio cheirava a suor e tatame. Sentia meus pés gelados, mas minhas palmas da mão suavam. Eu ia encarar Bruno, um cara mais velho, mais forte e de faixa mais alta. Da sétima série. Eu estava na quinta (lembra quando isso era importante?).
O vencedor ia enfrentar Leonardo, meu melhor amigo. Filho do dono da escola, por sinal. Isso significava duas coisas:
- Seu pai estava sempre por perto.
- Ele sempre me dava os piores castigos quando eu aprontava. Do tipo de castigo que só um boomer é capaz de dar numa criança.
Aquele dia, a única coisa que me dava mais medo que o Bruno... era ter que encarar o Léo.
O juiz anunciou hajime. Eu gritei kiai como se minha vida dependesse disso (talvez de fato dependesse) e nós começamos.
Segurei minha posição. Surpreso comigo mesmo, confesso.
Até que... ele me derrubou.
Agora, se você não conhece judô, derrubar alguém não é necessariamente o fim da luta. Dependendo do jeito que o adversário cai, é preciso segurá-lo no chão por 10 segundos.
O Bruno abriu a contagem. E eu... nem me dei o trabalho de resistir.
Deixei ele ganhar. Arreguei.
Disse pra mim mesmo que tinha sido estratégico. Que se eu perdesse agora, não precisaria lutar contra o Léo. Que ele poderia ganhar o ouro, eu, o bronze, e os dois estariam felizes.
Exceto que… eu perdi a disputa de terceiro também.
E larguei o judô.
Sem despedidas dramáticas.
Sem anúncio.
Eu só nunca voltei a treinar.
E por trinta anos eu me contei histórias.
"Perdi pro cara que perdeu pro campeão."
"A faixa dele era maior que a minha."
"Eu tava parado há dois anos. Nunca chegaria no mesmo nível dele."
Embrulhei aquele momento com um papel bem bonito de explicações, guardei no fundo da gaveta e segui com a vida.
Até que ali estava eu, aos 41. Não pensando em troféus, faixas ou vingança, mas fazendo perguntas pra um robô, querendo entender uma arte marcial que eu mal tinha começado praticar.
Por quê?
Porque aquela minha versão de onze anos conduziu a orquestra por três décadas. Aquele momento, deitado embaixo do Bruno e fingindo ser incapaz, se tornou padrão.
Quando pensei em postar algo e desisti? Mesmo padrão.
Toda vez que apaguei um rascunho porque "o que o pessoal do escritório vai pensar?"
Sempre que disse "não tenho tempo", quando na real passava 2 horas por dia no Instagram?
Mesmo padrão.
Mesmo medo.
Mesma desculpa disfarçada de estratégia.
Trinta anos depois e eu ainda perdia pro Bruno.
Foi aí que decidi pisar no tatame de novo. Mas dessa vez era jiu-jitsu. Um pouco mais de chão. E muito mais humildade.
Nos primeiros meses, me sentia como um boneco de pano.
Na sequência, comecei sobreviver. Progresso.
Mas o que me surpreendeu foi o seguinte: não era só meu corpo aprendendo.
Meu vocabulário estava se expandindo. Palavras como montada, raspagem, finalização se tornaram normais, mas também palavras que eu nunca falei pra mim mesmo quando criança.
Vergonha.
Resistência.
Arrego.
Passei a vida toda me explicando com voz passiva: ‘as coisas não aconteceram pra mim hoje’. Mas agora eu consigo dar nome pra tudo isso: eu desisti, tive medo, escolhi o silêncio.
E uma coisa que quase uma década de psicanálise me ensinou é que quando você consegue dar nome... consegue mudar.
Apesar de ser meio tarde pra isso, esse não é um texto sobre jiu-jitsu.
É que voltar pro tatame não me deu só meu corpo de volta. Me deu minha voz.
E voz, poxa, voz é tudo. Especialmente agora.
Porque a parada é a seguinte: toda vez que você mostra a cara na internet, tentando falar sobre seu trabalho, seu projeto, sua história... a voz da sua criança de 11 anos vai aparecer. E vai sussurrar no seu ouvido “não vai passar vergonha.”
Vai dizer "e se ninguém curtir?"
E você talvez desista.
Mas o que o jiu-jitsu me ensinou é que o objetivo não é ganhar. É continuar treinando. E o mesmo vale pro seu conteúdo.
Quando você sentar pra escrever seu próximo post, roteiro ou bio, é como se estivesse se dando uma nova chance.
Se você quer construir autoridade, uma marca pessoal forte ou confiança, não comece com bullet points. Comece com feridas.
Comece com uma história.
Uma de verdade. Daquelas em que você teve medo. Ou se sentiu perdido(a). Ou errado(a).
É aí que a conexão mora.
É o que faz alguém parar de rolar o dedo na tela.
Você não precisa ser o herói. Só precisa ser honesto(a).
Eu sei que é difícil, acredite. É vulnerável. Como também é difícil e vulnerável colocar a faixa branca aos 40, rodeado por uma garotada 20 anos mais nova, com orelhas de couve-flor e faixas roxas na cintura.
Mas depois da decisão, você faz mesmo assim.
Porque se você quer que as pessoas acreditem na sua mensagem, você precisa ir na frente. Precisa mostrar o que essa resistência causa e parece.
E o acontece quando você continua apesar dela.
Eu nunca vou saber se eu poderia ter ganhado do Léo aquele dia ou se teria conseguido interromper a contagem. Mas eu sei de uma coisa:
Contar essa história não muda o passado.
Mas muda quem manda no presente.
E cada vez que você conta a sua, faz o mesmo.
usando o CQC•GPT
Essa história não surgiu pronta.
Nasceu de um rabisco. De um desconforto antigo.
E de um exercício de escrita com o CQC•GPT — meu parceiro criativo treinado com a metodologia que ensino por aqui.
Se você também tem um episódio que vive se repetindo — ou uma ideia que vive travando — talvez essa seja a hora de contar.
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A história de hoje foi pessoal, mas não é só sobre mim.
Ela é sobre todo mundo que já desistiu antes de tentar.
Na próxima edição, sigo nesse caminho e aprofundo um galho importante da árvore do posicionamento: como transformar sua experiência em história que conecta — sem parecer forçado ou roteirizado.
Até o feed,
Daniel Damico
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