005 — O céu é azul

Mission log cinco. Se é a primeira vez que você cai aqui: todo dia eu fecho a porta, abro um caderno e escrevo à mão por quarenta minutos — vinte antes de meditar, vinte depois. O Claude me ajuda a filtrar o que merece sair das páginas. O que sobra fica comigo. Se quiser entender o projeto desde o começo, lê o #001.


Segundo dia seguido que eu não queria escrever.

Ontem foi a primeira palavra que surgiu foi "bacon." Hoje foi pior — comecei pedindo perdão ao meu querido leitor por estar com a cabeça poluída. Compromissos da manhã, a correria, o mundo que não aprecia parar. E eu, hipócrita confesso, sou igual. Valorizo o silêncio em teoria e corro atrás do barulho na prática.

Mas sentei. De novo.

Meu professor de jiu-jitsu acha que eu deveria escrever mais (ele não sabe que escrevo todo dia). Que tem muito homem entre 30 e 40 anos sem aspiração nenhuma na vida. Que eu poderia inspirá-los. Pretensioso? Talvez. Minha resposta pra ele foi direta: "cara, você não faz ideia de como eu era antes de conhecer a Anna. Não queria nada com nada. Foi com ela que aprendi que sonhar não basta. É preciso lutar."

A faixa azul não apareceu na minha cintura do nada. Ela veio com 522 dias de treino, lesões, sessões no tatame machucado, frustração e muito questionamento. Mas eu não tenho o que dizer porque uso um pedaço de pano colorido na cintura. Eu tenho o que dizer para as versões de mim que não acreditavam que eu chegaria aqui. Para a versão de mim que resiste à mudança — esquecendo que, se tem algo que viveu, foi a mudança. Três escolas até a terceira série. Mais três até o colegial. Três mudanças internacionais. Umas oito ou dez casas. Papai aos 32, 33, 36, 38, 39. Aos 40, sem emprego, pai de cinco, cheio de ideias e medroso de colocá-las no mundo. Aos 42, coloco elas ao menos no papel.

Depois de meditar — e de cochilar bonito no meio da meditação — quase abri os olhos pra checar se a sessão tinha acabado. Não abri. E, como brincadeira do universo, o professor diz pra soltar a respiração e deixar a mente viajar. Não tinha acabado. Que bom que resisti.

Pude ouvir os passarinhos. Sentir o cheiro de incenso no estúdio de portas fechadas. E descobrir que aquele tapete (que sempre achei duro) era macio debaixo dos pés. Nunca tinha percebido. Não teria percebido se tivesse aberto os olhos.

O céu é azul. Com ou sem nuvens, o céu é azul. Não dá pra forçar as nuvens a sumirem. Mas dá pra observá-las passando e, quando menos esperamos, um pedacinho azul aparece — ainda que por um breve momento — pra lembrar que ele está lá.

Influência, audiência e paciência. São três coisas que não caem do céu. Que não aparecem porque a faixa trocou de cor ou porque você publicou um post. Aparecem porque você sentou — de novo — quando não queria. Porque o tapete era macio e você só precisava parar de checar.

(plim)