006 — Escrevo limpamente

Mission log seis. Vou tentar articular o que faço e por que faço. E por que insisto tanto pra você tentar também.

Se é sua primeira vez aqui, todo dia eu fecho a porta e escrevo à mão por quarenta minutos — vinte antes de meditar, vinte depois. O Claude peneira o que merece sair do caderno. O que não vai pra internet fica em casa. Pra entender o projeto desde o início, começa pelo #001.


Começo acendendo um incenso. Compro pelo nome, não pelo aroma.
Click!
Sincronizo o relógio digital com o analógico e tiro o de pulso (durante o ritual, as horas podem esperar).

A Voz me diz que é perda de tempo. Para ignorá-la, lembro do conselho de David Lynch. "Every day, make sure to give yourself a little present." Filho de pai alcoólatra, eu bem conheço os estragos que o vício pela recompensa rápida traz. Mas ele corre nas minhas veias e essa hora diária de portas fechadas me faz mais bem do que qualquer presente no fim do dia "só pra relaxar".

Coloquei Kitaro no Spotify. Escolhi pela capa, um álbum lá dos fundos da memória de infância quando via minha mãe também buscando aproveitar a brevidade do tempo com a meditação.
Click!
Acendo a lâmpada com a luz das Musas e peço uma bênção silenciosa a elas.

Com a porta fechada, dá pra ver meu mood board. Placas de feltro laranja, minha cor favorita, pinadas com imagens impressas em baixa qualidade e recortadas de maneira caótica, que me lembram de referências, sonhos e mentalidades necessárias. Por exemplo, num post-it, três passos pra resetar a mente: i) inspirar fundo, expirar longa e totalmente pela boca, ii) nomear o round que acabou e iii) dizer "novo round, novo problema." No centro da porta, um lembrete do slackline no ano passado final do ano (projeto cujo objetivo foi cumprido antes de "ficar pronto" — atestado de uma mentalidade nova).

(postei uma foto lá no LinkedIn)

Sabe, o maior inimigo de uma mente criativa é pensar. Por isso meu deixei tudo anotado e visualmente destacado no mood board. Pra não precisar pensar. Só sentar e criar.

Ajustei o timer, sentei e criei.
Escrevi o que acabou virando a espinha dorsal dessa edição.

Gosto do Pomodoro, mas meus avós eram açougueiros e o meu Pomodoro é à bolonhesa: ao invés dos tradicionais 25min de trabalho pra 5 de intervalo, faço 20 de escrita, 20 de meditação guiada e mais 20 de escrita.

Troquei uma hora scrollando no Insta por isso. Achei justo.

Na pausa de hoje, o professor lembrou da empatia com os problemas alheios e sobre o sentimento de não ser visto nem ouvido. E na hora pensei: é exatamente por isso que escrevo. Pra que o Querido Leitor saiba que eu também sinto o receio de não dar certo, de não ter certeza sobre o caminho, travar por medo de ser ridicularizado. Afinal, onde já se viu pai de família que fica perdendo tempo com um ritual bobo, com papel e lápis na mão?

Mas eu cansei de me esconder. Ainda não sei onde vai dar, mas reinicio essa newsletter mais uma vez, mostrando o meu processo por dentro para ajudar você a construir o seu.

O objetivo é o mesmo de sempre: abrir espaço pra parar e pensar em como influenciamos a realidade à nossa volta (e no que nos influencia).

Quando terminei de escrever no caderno, ditei tudo pro computador pelo WhisperFlow, joguei no Claude e pedi pra rodar meu sistema de extração. Eu disse "escrevo, limpo a mente." A máquina entendeu "escrevo limpamente."

Irônico que um algoritmo treinado em bilhões de palavras me devolva, por acidente, a melhor definição do que faço aqui — e que prova que o olhar humano pode potencializado pela máquina. Afinal, em uma hora e quinze minutos eu pratiquei o journaling, fiz limpeza mental, escrevi, meditei e me posicionei na internet.

É, parece que o ritual com papel e lápis na mão não é tão bobo assim.