008 — Absolutamente nenhum

Mission log oito. Hoje sem ritual. Sem incenso, sem oração às Musas, sem mood board. Vinte minutos no caderno depois que a casa inteira dormiu, só pra não quebrar a corrente. O Claude peneirou, eu passei a faca. Quem chegou agora e quer acompanhar o projeto, #001 é o começo.


Antes dos vinte minutos, duas horas na academia. Aula de jiu jitsu. Rolei no tatame por cinquenta minutos sem parar com os caras mais graduados da turma. Eu esperava que eles fossem mais agressivos comigo agora, mas me encheram de dicas e movimentos pra enriquecer "meu jogo".

Por dentro, eu sentia tudo absolutamente normal e igual; por fora era uma certa excitação de quem agora pode mais e que também pode sofrer as consequências. Pegar a faixa azul foi tipo fazer dezoito anos.

No final da aula, perguntei pro Phal, outro faixa marrom: "Qual foi seu breakthrough quando ganhou a faixa azul? Quero aprender com quem já percorreu o caminho."

A resposta foi uma lição de humildade: "Absolutamente nenhum. Só continue aparecendo e treinando duro."

Eu tenho essa ideia romântica de que algo vai acontecer — o estalo, a faísca, a sequência que muda tudo. O mundo real, fora da minha cabeça, é mais simples e menos bonito: continue aparecendo. Mesmo cansado. Mesmo que a casa inteira já estiver dormindo e as pálpebras pesarem a cada piscada.

Cheguei em casa e fui viver. Banho, camas arrumadas, roupa dobrada, freio de bicicleta consertado, pizza, curativo em machucado infantil, filhotes de férias.

Quando finalmente sentei aqui pra escrever, algo estava diferente.

A Voz não deu as caras. (Escrevi mais sobre ela lá no LinkedIn.)

Não dei chance pra ela aparecer. Mente ocupada, corpo em movimento — ela não encontra porta pra entrar. É com a mente cheia e o corpo parado que ela domina. Sofá, tela, teto, espera. Aí ela monta mesmo.

Hoje não. Hoje ela ficou do lado de fora.

Segui o conselho do Phal também no meu conteúdo. Hoje não tem breakthrough. Absolutamente nenhum. Só continuei aparecendo.